Jornal do Brasil


Por Evaldo Novelini - 15 de julho de 2010

Urupê.

Segundo as enciclopédias, um cogumelo parasita que se consorcia com árvores em estado terminal, sugando o que lhes resta de seiva até que tenham virado pó. Também conhecido como orelha-de-pau ou pironga.

O grande escritor paulista José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948) foi muito feliz ao empregar o substantivo como metáfora.

Utilizou-o para definir o caboclo, para o autor, símbolo do menor esforço, sempre a se beneficiar do que a terra dispõe para a sua sobrevivência sem nunca dar-lhe uma contrapartida.

Eis Lobato definindo-o na figura do Jeca Tatu, um de seus personagens mais conhecidos, em famoso ensaio datado de 1918: “Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jeca não mudará de vida”.

Lembrei-me de Urupês, que este é o título do texto de Lobato, ao tomar conhecimento das intenções do empresário Nelson Tanure de fechar o centenário Jornal do Brasil, diário fluminense que circula ininterruptamente desde 1891.

O jornal seria deficitário, segundo justifica o patrão.

Nenhuma novidade. A dívida do JB é histórica. Em janeiro de 2001, quando Tanure arrendou a marca da família Nascimento Brito, batia na casa dos R$ 750 milhões – que ele inteligentemente deixou para trás ao constituir uma nova empresa para editar o jornal.

Em nove anos, a credibilidade do Jornal do Brasil foi dilapidada. Gerido apenas como mais um negócio, destinado a dar dinheiro a qualquer custo, perdeu importância e leitores.

Um episódio simbólico ocorrido em 24 de setembro de 2004 já demonstrava, para quem tinha olhos de ver, que o velho e combativo JB  estava condenado. Nesta data, com o título “Miro denuncia propina no Congresso“, o jornal noticia com exclusividade o mensalão, escândalo político segundo o qual o governo Lula pagava uma mesada a deputados da base aliada para aprovarem seus projetos. Mas, diferentemente do que ocorreria dali a um ano, quando o assunto seria manchete da Folha de S. Paulo, não houve reação alguma.

Atolado em dívidas, estimadas em R$ 100 milhões, e com circulação caindo a 20 mil exemplares diários, o neófito empresário, incapaz de entender o valor de uma marca como o JB para a história da imprensa nacional, opta pela saída mais fácil: acabar com o jornal.

Tal qual o caboclo de Lobato, inábil para trabalhar a natureza que poderia lhe garantir vida mais longa e estável, Tanure prefere sucumbir aos percalços tão logo a seiva que lhe mantém agarrado ao negócio começa a dar sinais de esgotamento.

O JB não é a primeira de suas vítimas. No ano passado, fez o mesmo com a paulista Gazeta Mercantil, diário econômico e político com tanta credibilidade que presidentes faziam questão de ser fotografados com a edição do dia para transparecer que estavam bem informados sobre o que ia no país e o mundo.

O melancólico fim do Jornal do Brasil não significa tão-somente uma opção de leitura a menos nas bancas do país. Com ele, extingue-se também um importante elemento regulador da imprensa no Rio de Janeiro, que passará a ser dominada completamente pelos veículos do grupo Globo.

É algo terrível e temível.

Para se ter uma ideia do que isso significa, é preciso relembrar o sinistro episódio relatado no livro Plim-Plim, a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral (Conrad, 230 páginas, 2005), escrito pelos jornalistas Paulo Henrique Amorim e Maria Helena Passos.

O livro conta a história das eleições para o governo do estado do Rio de Janeiro de 1982, disputada palmo a palmo pelos candidatos Leonel Brizola e Wellington Moreira Franco.

Brizola era inimigo declarado da Globo, que contratou uma empresa privada, a Proconsult, para fazer uma apuração dos votos paralela à da justiça eleitoral.

Ressalte-se que, à época, o voto ainda era manual e a apuração levava dias.

Enquanto Brizola vencia na contagem oficial, o candidato da Globo, Moreira Franco, liderava a da Proconsult. Os veículos globais, evidentemente, só noticiavam o resultado que lhes interessava.

O golpe branco só não se configurou justamente porque, segundo relatam Amorim e Maria Helena no livro, o jornal e a rádio Jornal do Brasil denunciaram a falcatrua em alto e bom som e alertaram autoridades e a opinião pública nacionais.

Maktub


Por Evaldo Novelini - 12 de julho de 2010

Sob o título “Estava escrito”, Mauricio Dias escreve em sua Rosa dos Ventos, seção imperdível da semanal CartaCapital:

- Afirmação editorial da revista Veja, edição nº 1999, de março de 2007: Os primeiros 60 dias do governo Arruda no DF são um furacão de eficiência. Se continuar assim, ele fará uma revolução.

E, fez.

Apreço pelo debate de ideias


Por Evaldo Novelini - 1 de julho de 2010

Vou pela edição de hoje de O Globo.

Na coluna de Ancelmo Gois, uma de minhas preferidas, trombo com a nota escondida sob instigante título, “É pena”.

Leio: “Ao recusar convite do programa de Miriam Leitão na GloboNews, Dilma Rousseff mostrou pouco apreço pelo debate de ideias.”

Reflito. Busco pela memória fato semelhante ocorrido no já longínquo ano de 2009.

Resolvo interpelar, via blog, o autor da nota.

São 17h06 e escrevo:

- Caro Ancelmo, gostei muito da nota “É pena”. Utilizando a sua lógica, gostaria de fazer-lhe uma pergunta: ao liderar a saída de seis das oito entidades empresariais que participavam da comissão organizadora da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, no final do ano passado, o diretor de Relações Institucionais das Organizações Globo, Evandro Guimarães, também demonstrou “pouco apreço pelo debate de ideias”? Ou uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa?

O relógio aqui do computador marca exatas 23 horas. Ancelmo Gois ainda me deve uma resposta. Já posso inferir que o homem mostra pouco apreço pelo debate de ideias?

José Saramago


Por Evaldo Novelini - 18 de junho de 2010

Tristeza.

Morreu hoje o escritor português José Saramago.

Tinha 87 anos.

A perda só não é maior porque fica a obra, o legado de um dos grandes nomes da escrita universal. O único escritor em língua portuguesa a ganhar um prêmio Nobel de literatura, em 1988.

Dois anos atrás, Saramago concedeu uma entrevista brilhante.

Aos 85 anos, conversou com os jornalistas Ana Cristina Câmara e Vladimiro Nunes, da revista cultural Tabu, um suplemento do jornal Sol, que circula em Portugal.

Em conversa com o editor da publicação, Vítor Rainho, Alfarrábios obteve autorização, por escrito, a republicar a conversa, que levava um título singelo:

- “Sou um sentimental”.

Eis um momento oportuno para reler a entrevista, aqui publicada em cinco partes.

Primeira parte: “De fato, a eternidade não existe. Nem sequer a da obra que fica. Nada é eterno. Basta pensar que, um dia, o nosso planeta desaparecerá e não ficará nada”.

Segunda parte: “Sou um escritor algo atípico. Só escrevo porque tenho idéias. Sentar-me a pensar que tenho que inventar uma história para escrever um livro nunca me aconteceu e nunca me acontecerá”.

Terceira parte: “O ponto final e a vírgula, eu não lhes chamo pontuação. Chamo-lhes sinais de pausa. Tudo aquilo que escrevemos, que dizemos, é feito com os mesmos materiais. Sons e pausas. Depois vieram mudanças mais recentes, como a rejeição da maiúscula, que começou com a rejeição do itálico. Ao dizer o nome de um cão, de um barco ou de um livro, quem é que nota se está a ser dito em itálico ou em redondo? Então vamos acabar com essa história de itálico. Ainda por cima desfeia a página. Mas depois isto pode chegar a extremos. Ultimamente, não me apetece escrever os nomes com letra grande, ainda por cima o de pessoas ilustres, gênios”.

Quarta parte: “[Ao ganhar o Nobel], era aplaudido por pessoas que nem ler sabiam, mas que tinham sentido o que eu chamei, na altura, crescer três centímetros.”

Quinta parte: “O que falta em Portugal é exatamente isso – sentido crítico. Já nem somos capazes de balir. Méééééé! Nem sequer isso. Achamos que a crítica, a autocrítica, a contracrítica é coisa deles, dos políticos, dos jornalistas.”

Descanse em paz, mestre. Será difícil conviver com a certeza de que não seremos mais surpreendidos com um livro novo seu.

Siameses


Por Evaldo Novelini - 9 de junho de 2010

Notícia é o inusitado.

Se um cachorro morde um homem, ensinam os professores nas escolas de comunicação, a história não se sustenta nas páginas de um jornal.

Mas se o inverso acontece, o relato do homem mordendo o cão deve necessariamente estar nos matutinos do dia seguinte.

Lembrei-me das lições dos mestres ao ler a seção de cartas de leitores da Folha de S. Paulo desta quarta-feira e deparar-me com a seguinte epístola:

“Fernando de Barros e Silva, na coluna ‘Verde água‘ (Opinião, ontem), diz que ‘Sérgio Cabral surfa tranquilo, com o apoio de Lula e a simpatia da Rede Globo’. Como o colunista não acompanha o jornalismo local da TV Globo no Rio, acredito que a afirmação seja fruto de falta de conhecimento ou de preconceito. A TV Globo do Rio cobre o governo Cabral da mesma forma que a Folha cobriu o governo Serra e outros. Assim como a Folha, a TV Globo é apartidária e busca a isenção em todas as suas coberturas.”

Assinava a missiva Ali Ahmad Kamel Ali Harfouche, “diretor da Central Globo de Jornalismo”.

Ele mesmo. O revolucionário autor das teorias do jornalismo testador de hipóteses e da que o Brasil não é um país racista.

Como até hoje nunca havia concordado com nada do que Ali Kamel escrevera e agora estava inteiramente de acordo com a opinião dele, especialmente com a comparação entre o apartidarismo da Folha e a da Globo, não tive dúvidas: estava diante de uma notícia.

E resolvi tratar dela aqui.

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