Urupê.
Segundo as enciclopédias, um cogumelo parasita que se consorcia com árvores em estado terminal, sugando o que lhes resta de seiva até que tenham virado pó. Também conhecido como orelha-de-pau ou pironga.
O grande escritor paulista José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948) foi muito feliz ao empregar o substantivo como metáfora.
Utilizou-o para definir o caboclo, para o autor, símbolo do menor esforço, sempre a se beneficiar do que a terra dispõe para a sua sobrevivência sem nunca dar-lhe uma contrapartida.
Eis Lobato definindo-o na figura do Jeca Tatu, um de seus personagens mais conhecidos, em famoso ensaio datado de 1918: “Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jeca não mudará de vida”.
Lembrei-me de Urupês, que este é o título do texto de Lobato, ao tomar conhecimento das intenções do empresário Nelson Tanure de fechar o centenário Jornal do Brasil, diário fluminense que circula ininterruptamente desde 1891.
O jornal seria deficitário, segundo justifica o patrão.
Nenhuma novidade. A dívida do JB é histórica. Em janeiro de 2001, quando Tanure arrendou a marca da família Nascimento Brito, batia na casa dos R$ 750 milhões – que ele inteligentemente deixou para trás ao constituir uma nova empresa para editar o jornal.
Em nove anos, a credibilidade do Jornal do Brasil foi dilapidada. Gerido apenas como mais um negócio, destinado a dar dinheiro a qualquer custo, perdeu importância e leitores.
Um episódio simbólico ocorrido em 24 de setembro de 2004 já demonstrava, para quem tinha olhos de ver, que o velho e combativo JB estava condenado. Nesta data, com o título “Miro denuncia propina no Congresso“, o jornal noticia com exclusividade o mensalão, escândalo político segundo o qual o governo Lula pagava uma mesada a deputados da base aliada para aprovarem seus projetos. Mas, diferentemente do que ocorreria dali a um ano, quando o assunto seria manchete da Folha de S. Paulo, não houve reação alguma.
Atolado em dívidas, estimadas em R$ 100 milhões, e com circulação caindo a 20 mil exemplares diários, o neófito empresário, incapaz de entender o valor de uma marca como o JB para a história da imprensa nacional, opta pela saída mais fácil: acabar com o jornal.
Tal qual o caboclo de Lobato, inábil para trabalhar a natureza que poderia lhe garantir vida mais longa e estável, Tanure prefere sucumbir aos percalços tão logo a seiva que lhe mantém agarrado ao negócio começa a dar sinais de esgotamento.
O JB não é a primeira de suas vítimas. No ano passado, fez o mesmo com a paulista Gazeta Mercantil, diário econômico e político com tanta credibilidade que presidentes faziam questão de ser fotografados com a edição do dia para transparecer que estavam bem informados sobre o que ia no país e o mundo.
O melancólico fim do Jornal do Brasil não significa tão-somente uma opção de leitura a menos nas bancas do país. Com ele, extingue-se também um importante elemento regulador da imprensa no Rio de Janeiro, que passará a ser dominada completamente pelos veículos do grupo Globo.
É algo terrível e temível.
Para se ter uma ideia do que isso significa, é preciso relembrar o sinistro episódio relatado no livro Plim-Plim, a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral (Conrad, 230 páginas, 2005), escrito pelos jornalistas Paulo Henrique Amorim e Maria Helena Passos.
O livro conta a história das eleições para o governo do estado do Rio de Janeiro de 1982, disputada palmo a palmo pelos candidatos Leonel Brizola e Wellington Moreira Franco.
Brizola era inimigo declarado da Globo, que contratou uma empresa privada, a Proconsult, para fazer uma apuração dos votos paralela à da justiça eleitoral.
Ressalte-se que, à época, o voto ainda era manual e a apuração levava dias.
Enquanto Brizola vencia na contagem oficial, o candidato da Globo, Moreira Franco, liderava a da Proconsult. Os veículos globais, evidentemente, só noticiavam o resultado que lhes interessava.
O golpe branco só não se configurou justamente porque, segundo relatam Amorim e Maria Helena no livro, o jornal e a rádio Jornal do Brasil denunciaram a falcatrua em alto e bom som e alertaram autoridades e a opinião pública nacionais.


