Luiz Carlos Azenha nasceu em Bauru (SP) no ano de 1958. Formado em jornalismo pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, experimentou uma ascensão meteórica em sua carreira. Iniciou-a no Jornal da Cidade, tradicional diário impresso de sua cidade natal. Na década de 80, começou a trabalhar em televisão. Nesse meio, uma de suas maiores reportagens foi a cobertura dos encontros entre os presidentes russo Mikhail Gorbachev e norte-americano Ronald Reagan (1911-2004) que selaram o fim da Guerra Fria (1945-1991). Transformou-se em um dos principais repórteres da maior emissora do país, a Globo.
Foi por isso que Azenha causou espanto em grande parte de seus telespectadores ao anunciar publicamente em 2007 que estava rescindido o contrato que mantinha com a empresa. O assombro foi se transformando em admiração quando o jornalista revelou os motivos de sua decisão: não concordava em trabalhar em uma emissora que ultrajara os preceitos do jornalismo para fazer de Geraldo Alckmin (PSDB) o presidente da república nas eleições do ano anterior.
Instalado em um blog na internet, o Viomundo, passou a observar o comportamento da chamada grande mídia com raras argúcia e inteligência. Ajudou a desmascarar um dos maiores crimes cometidos contra o jornalismo no ano passado: a publicação de uma ficha falsa pela Folha de S. Paulo acusando de terrorista e assaltante a ministra da Casa Civil e nome do governo à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições gerais de outubro próximo, Dilma Rousseff.
Antes disso, em 2007, Azenha já havia consolidado sua nova trincheira ao expor de modo inequívoco as falhas da chamada grande imprensa brasileira: superficial, tendenciosa, falível. Deu-se o seguinte. Recém-saído da Globo, foi à Caracas, capital venezuelana acompanhar o plebiscito com o qual o presidente Hugo Chávez pretendia reformar a constituição nacional. Entre as mudanças, a de maior impacto previa extinguir o limite de vezes que o chefe do executivo federal poderia concorrer à reeleição. O pleito estava marcado para o domingo 2 de dezembro.
Após o pleito, enquanto as urnas ainda estavam sendo abertas, correspondentes dos jornais brasileiros preferiram acreditar nas fontes oficiais – aquelas mesmas que os seus veículos tanto acusavam de parcialidade – e enviaram os despachos dando como certa a vitória do presidente venezuelano. O Estado de S. Paulo chegou a manchetar a derrota do “Não” no plebiscito na edição da segunda-feira, dia 3 de dezembro de 2007: ”Referendo aumenta poderes de Chávez”. Em página interna, em seis colunas, o diário centenário ratificava de modo ainda mais enfático: “Chávez vence referendo e ganha superpoderes na Venezuela”.
Exatamente às 3h25 daquela segunda-feira, algum tempo antes de as edições dos jornalões começarem a circular e a desinformar seus leitores, o Viomundo revelava a seus seguidores: o “Não” recebera 50,7% dos votos contra 49,29% do “Sim”, confirmando a derrota de Chávez. O episódio deu azo ao slogan que o blog de Azenha utiliza até hoje: “Viomundo: ligado enquanto os outros dormem”. No ano passado, o portal do jornalista, hoje empregado pela rede Record, foi escolhido em uma eleição promovida por uma editora como o melhor espaço de discussão política na rede mundial de computadores. Fruto dessa premiação, o livro Vi o Mundo – O que você nunca pôde ver na tevê (Editora Blogbooks, 220 páginas, R$ 29,90) já está nas estantes das livrarias.
Considerado um dos mais argutos e inteligentes críticos da mídia brasileira, Azenha aceitou o convite de Alfarrábios para conceder uma entrevista sobre o impacto que os blogs causaram nos veículos tradicionais. Abaixo, a íntegra do bate-papo, que inaugura, oficialmente e em grande estilo, o novo desenho deste espaço:
Pode-se dizer que, nos últimos cinco anos, os blogs passaram a ocupar um espaço importante no conjunto das opções que o leitor brasileiro tem à disposição para se informar. Já é possível fazer um balanço dos principais impactos que eles causaram nos meios de comunicação tradicionais, como os impressos e os televisivos? Tenho dificuldades em fazer essa avaliação, porque sou prova viva da mudança: raramente leio jornais impressos. Poucas vezes vejo TV, por falta de tempo ou por falta de paciência com a “grade de programação”. Essa é uma frase que mudou de sentido depois que a internet se tornou tão importante para uma parcela significativa da classe média brasileira: tornou-se mais literal, a “grade” como símbolo daqueles que são prisioneiros da programação, cujos horários são definidos pelas emissoras, não pelos telespectadores. É preciso ter claro que apenas uma parcela dos brasileiros lê blogs e tem acesso à internet rápida. Dito isso, essa parcela crescentemente define o próprio cardápio e o próprio horário em que quer ver, ler e ouvir as notícias. Não tenho dúvidas de que esse segmento é subavaliado quanto ao potencial publicitário que representa, o que atribuo ao interesse de alguns grandes grupos de manter tudo como está, porque está bom assim. Não é inacreditável que o IBOPE [Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística] seja o único medidor de audiência de TV no Brasil e que até recentemente só o fazia instantaneamente em São Paulo e no Rio de Janeiro? Nem parece que estamos em um capitalismo de mercado: o mercado é São Paulo/Rio, as grandes emissoras falam do e para o São Paulo/Rio, as agências falam do e para São Paulo/Rio e ficamos sem saber quais os matizes e as nuances do mercado da informação no Brasil. Não interessa fazer ver ao anunciante que investir 10 no Alfarrábios em busca de um nicho do mercado faz muito mais sentido do que investir 10 mil na TV Globo, para praticar o que podemos classificar de overkill. Mas se você quiser uma opinião que não é baseada em estatísticas ou em aferição métrica, digo que a disputa por leitores/telespectadores/ouvintes que foi aprofundada e ampliada depois da expansão da internet provocou um manchetismo apelativo quase indiscriminado e borrou de vez a fronteira entre Jornalismo e entretenimento. Os blogs são uma tentativa de resposta a isso.
Qual a principal contribuição que os blogs dão à comunicação social no Brasil? Temos uma estrutura de poder muito concentrada no Brasil. No Congresso Nacional, o poderoso nexo entre os donos de terras e os donos da comunicação se faz presente. No Executivo, o poder financeiro (expresso pelo Banco Central) joga de igual para igual com o Planalto. A ascensão de milhões de brasileiros à classe média, fruto das políticas públicas do governo Lula, não foi acompanhada pela ascensão plena destes brasileiros à cidadania. Temos uma Justiça morosa. Uma participação popular restrita às eleições. Partidos que decidem tudo de cima para baixo. Para se contrapor a isso temos alguns movimentos, nos quais eu encaixo um conjunto de blogs onde há opinião, informação e debate que não cabe dentro das margens rígidas da mídia tradicional. Aliás, que cabe cada vez menos. Mas é sempre importante lembrar que a chamada blogosfera atinge a um número bastante reduzido de brasileiros. E ela desenvolveu uma linguagem que tende a ser excludente, na medida em que os textos partem do pressuposto de que os leitores têm todas as referências culturais e intelectuais do blogueiro. Quando a gente fala da “série Veja do Nassif“, por exemplo, que se tornou referência para a blogosfera, partimos do pressuposto de que os leitores sabem o que é a Veja, quem é o Nassif, etc. Poderia apontar dezenas de outros exemplos. O risco é o de a blogosfera falar eternamente para a blogosfera.
Alguns analistas do mercado de comunicação brasileiro apontam o aumento dos acessos à internet como fator determinante para a queda de circulação dos meios impressos. Você acha que jornalistas e empresários têm motivos reais para temer a inclusão digital? A internet tem um papel econômico em uma sociedade tão importante – como disseminador de informação, de cultura, de trabalho, de acesso a fontes primárias, etc. – que a força dos empresários é mínima diante da força daqueles empresários que aprovam e investem na inclusão digital. Os jornais impressos, com certeza, vão sofrer, menos pela existência de blogs alternativos, mais pelo fato de que os principais anunciantes deles um dia descobrirão que é mais barato e eficiente atirar em nichos de mercado na mídia digital. Os classificados nos Estados Unidos migraram quase que inteiramente para a internet. O mercado de imóveis, também. Não há motivo para supor que será diferente no Brasil. As empresas de mídia têm optado por migrar para a produção de “conteúdo” para educação e para a disseminação de seus conteúdos informativos pelas plataformas digitais.
O jornalismo impresso e televisivo melhorou ou piorou após o advento dos blogs? É possível estabelecer relação entre uma coisa e outra? Não acho possível estabelecer essa relação. As grandes empresas também desenvolveram plataformas múltiplas na internet, com blogs de todos os tipos para todos os gostos. Acho que alguns blogueiros conseguiram cultivar os leitores de seus blogs como se cultiva uma plantação, por exemplo. Mas é um trabalho de nicho. Para trazer o grande público, aquele que ascendeu à classe média e comprou computador aos milhares, talvez milhões, os portais adotaram de forma padronizada a fórmula do entrenimento a qualquer custo, com ampla dose de notícias bizarras. E esse público encontra a atmosfera dos blogs progressistas, daquela camaradagem entre blogueiro e leitores, de troca de informações e opiniões, muito mais nas mídias sociais do que nos portais. Acho que toda a mídia mudou por causa da blogosfera, de maneira bem geral. Lia outro dia o artigo de um britânico dizendo que quando caiu, no Haiti, o presidente Aristide era vítima de duas agências de notícias que se baseavam em fontes locais - todas de empresas inimigas de Aristide. Se fosse hoje o Aristide teria um blog: blog do Aristide, direto de Porto Príncipe, disseminando a contrainformação para o mundo.
Você consegue imaginar qual teria sido o desfecho do episódio da ficha falsa da ministra Dilma Rousseff pela Folha de S. Paulo se os blogs não existissem? Acho que a Folha teria tido a possibilidade de dissimular e distorcer os protestos da ministra de uma forma que não pôde fazer, mas não apenas porque existem os blogs. A mídia se ampliou no Brasil nos últimos anos, especialmente com a entrada dos portais das telefônicas, com o crescimento da Record e com a mídia local Brasil afora.
Jornais e revistas impressos já se tornaram obsoletos e dispensáveis no Brasil? Acho que não. Há futuro nos nichos de mercado. Mas com certeza revistas e jornais impressos deixarão de ser o principal produto dos grandes conglomerados da comunicação.
Há algum jornal, revista ou programa de televisão nacional que você recomende? Cada um faz suas escolhas. Eu pago para ler a Carta Capital, o Le Monde Diplomatique e a Caros Amigos.
Qual avaliação você faz de grandes veículos impressos mundiais, como The New York Times, El País (o espanhol) e a New Yorker? Na sua opinião, eles ainda são repositórios de bom jornalismo? Eu prefiro os britânicos: a Economist, o Guardian, o Independent e com certeza o telejornalismo britânico, que formatou a Al Jazeera. É onde você às vezes encontra algo surpreendentemente fora do padrão, que eu acho que é a graça do Jornalismo. Ninguém quer deixar entrar em casa um estranho mal intencionado. Na falta de um amigo, que seja alguém que pelo menos traga de surpresa uma boa notícia: aquela reportagem que você não esperava, aquela informação que faz a diferença, etc. Eu acho que os britânicos cultivam essa inquietação essencial ao Jornalismo, já que perderam tudo o mais que orgulhava o império. É como se eles dissessem, de forma genérica: “Já estivemos lá. Já vimos como é”.
É possível dispensar a edição das notícias feitas por profissionais do jornalismo? Escusado ressalvar que a pergunta ultrapassa os eventuais desvios éticos do ofício, como o exercício da parcialidade e a hierarquização concertada de acordo com interesses políticos e financeiros dos donos das empresas. Nunca. Jornalistas nunca foram e nunca serão dispensáveis. O problema não é com o Jornalismo, em si. Mas com a margem de manobra dos jornalistas dentro das grandes empresas, que encolheu. Caiu o muro entre o departamento comercial e a redação. É um Deus nos acuda para arranjar dinheiro. As empresas cresceram muito, passaram a ter outros interesses e defendê-los – aberta ou clandestinamente – requer reduzir a margem de manobras dos jornalistas. Isso e mais o fato de que a internet mobiliza saber que antes ficava restrito à academia, à universidade. Há leitores médicos. Comentaristas advogados. Policiais que podem falar com muito mais propriedade sobre policiamento do que jornalistas. Donde essa crise de identidade: apertado de um lado pelo patrão, de outro pelos próprios leitores/ouvintes/telespectadores.
Alguns textos de seu blog, o Viomundo, acabam de ser editados em livro. É um tributo que o jornalista multimídia presta à palavra impressa? Não. Ganhei um prêmio e achei deselegante não recebê-lo. Mas a edição ficou bem bacana e posso oferecer aos que ainda não sabem o que é internet… Nada jamais substituirá ler e reler as páginas de um livro, marcá-las e pensar sobre elas. Mas o livro do Viomundo é mais um espelho do blog, ou talvez espelho do dono narcisista do blog.


24 de fevereiro de 2010 - 13:10
Evaldo, parabéns pelo visual do novo blog. Ficou muito bacana e mais funcional!
E pensar que você dizia que blog era “coisa de viado”. Como as coisas mudam!
Quanto à entrevista com o Azenha, vou imprimá-la, porque senão meus olhos vão procurar voluntariamente um banco de doações para se livrarem da tela do computador. Abraços!
24 de fevereiro de 2010 - 15:09
Evaldo!
Parabéns pelo novo layout!! Só senti falta da fumacinha na xícara…
A entrevista do Azenha suscitou uma questão interessante. Ainda que pequeno, o acesso a internet aumentou significativamente nos últimos tempos. Hoje muitos tem acesso à blogs e ferramentas como o twitter. Só que ainda ocorre o fenômeno da analfabetismo funcional. Quem hoje de fato sabe navegar na internet, desfrutar das ferramentas, das informações?? Poucos.
Como a ascênção á classe média, sem ascênção plena à cidadania, as ferramentas de informação são subutilizadas, opino. Afinal, quem nunca, depois de ler emails e coisas de rotina, parou em frente ao computador e se perguntou sobre o que mais tem a ser feito em frente a tela?
Abraços
26 de fevereiro de 2010 - 15:40
Parabéns pelo blog e pela entrevista. Ambos ótimos!
19 de abril de 2010 - 13:14
Azenha vem dando um show em seu blog, tanto nas reportagens e notíciais inéditas, como na crítica à mídia cartelizada, o PIG. É, sem dúvida, um dos mais importantes jornalistas brasileiros, e ainda terá momentos muito brilhantes com a ampliação da internet no Brasil.
16 de maio de 2010 - 12:00
è um apanhado geral do que é jornalismo e do que será.