Prefiro os livros*


Por Evaldo Novelini - 15 de fevereiro de 2010

- Leio de tudo, até bula de remédio!

Tenho uma inveja danada de gente assim, que dispõe de tempo para ler de tudo. Explico o porquê: embora conviva com problema crônico de insônia, a ponto de varar noites inteiras com um livro na mão, fico angustiado com a impossibilidade de dar conta, ao menos, das obras mais importantes que as editoras mandam para as prateleiras. É difícil passar 24 horas sem que eu descubra, nas páginas dos quatro suplementos culturais pelos quais corro os olhos diariamente, um livro novo cujo tema não me desperte a atenção. Vou comprando compulsivamente os volumes, na vã esperança de que conseguirei lê-los em alguma oportunidade, mas eles se acumulam, completamente virgens, na escrivaninha aqui ao lado.

Embora me esforce, muitas tramas acabam ficando para trás. Obras completas mesmo só li as de Monteiro Lobato (1812-1870), Machado de Assis (1839-1908). Gay Talese e Fernando Morais. Ainda existem tantos clássicos de Charles Dickens (1812-19870), Erico Veríssimo (1905-1975), Ernest Hemingway (1899-1961), Fiódor Dostoievski (1821-1881), Franz Kafka (1883-1924), Gabriel García Márquez, José de Alencar (1829-1877), para ficar restrito a alguns poucos, que gostaria de ler e tem gente com tempo sobrando para ler bulas de remédio! Ai que dor-de-cotovelo.

Minha esperança é a mesma do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986). Certa vez, ao ser questionado sobre o que imaginava para depois da morte, o autor de Ficções respondeu, após refletir durante alguns segundos: “Sempre imaginei o paraíso como uma espécie de biblioteca”. Ah, como anseio por algo semelhante. Todos os livros já lançados à disposição e o resto da eternidade para lê-los ao som das harpas dos anjos! Seria uma boa oportunidade para concluir toda a obra de William Shakespeare (1564-1616), por exemplo.

Democrata que sou, entretanto, respeito quem prefira as bulas de remédio. Eu, sinceramente, até tentei ler algumas. Mas não consegui avançar além das primeiras linhas. Os personagens até que são interessantes, complexos, mas a trama é muito fraca. O enredo delas chega, no máximo, aos pés daqueles engendrados por Paulo Coelho. E na questão literária sou extremamente ortodoxo. Particularmente, prefiro figuras como Capitu, cujos olhos de ressaca denunciam ao marido uma suposta traição no belíssimo Dom Casmurro. Mas se existem aqueles que se enlevam com piroxicam, topiramato, cefalexina, alprazolam e amoprazol, quem sou eu para criticar?

* Esta crônica foi publicada originalmente na edição número 94 do jornal Sete, semanário que circula nas cidades da zona leste da região metropolitana de São Paulo.

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