- Faltando ainda 20 dias para o início do horário eleitoral gratuito, os principais candidatos à Presidência priorizam o ataque direto, e não as propostas.
É o que vai pela capa da edição de hoje de O Globo.
Intrigado, mergulho na leitura das páginas internas para ver o que o jornalão fluminense entende por ataque.
O Houaiss aqui ao lado me ajuda na tarefa: ”Substantivo masculino. 1: Ação de causar dano moral a alguém; ofensa, injúria”.
Na página 4, a repórter Letícia Lins dá voz à Dilma Rousseff, candidata do PT à presidência, não sem antes lembrar que ela “chegou a exagerar”. Leiamos o que a petista entende por ataque:
- Por todo o retrospecto da vida democrática do país, este é um dos momentos dos mais desqualificadores em toda a História das campanhas eleitorais depois da democratização do país. São acusações completamente infundadas, inconsequentes e irresponsáveis.
Dilma queixa-se, não é preciso ser muito inteligente para descobrir, dos últimos ataques de que foi vítima.
Relembremos dois. Em 5 de abril de 2009, a Folha de S. Paulo, jornal de maior circulação no Brasil, publica no alto da primeira página, como sendo autêntica, uma ficha falsa apontando Dilma como terrorista e assaltante de banco. A repercussão é imediata. Baseado na reportagem, um jornal diário de Mogi das Cruzes (SP) chegou a recomendar em editorial que seus eleitores evitassem votar na petista: “Para a Presidência da República, no entanto, convenhamos, assaltante de banco e sequestradora não é uma opção segura.”
Um outro é mais recente. Indio da Costa, candidato a vice-presidente na chapa encabeçada pelo tucano José Serra (PSDB), nome preferido do baronato da mídia tupiniquim para suceder Luiz Inácio Lula da Silva, acusa o PT de estar ligado ao narcoterrorismo.
Mas O Globo, relembremos, julga que Dilma exagera. Por quê? Segundo a repórter Letícia Lins porque ela se esqueceu do que o próprio PT fez em 2006, quando alguns de seus membros foram “flagrados com malas de dinheiro para comprar um dossiê falso”. Tanto dinheiro, que eram necessárias malas para acondicioná-lo, em troca de informações mentirosas? Sei. Tudo muito lógico.
O que chama mais atenção, no entanto, é o segundo motivo empregado pela jornalista do jornalão fluminense para afirmar que Dilma exagera: “[Ela se esquece] até da campanha de 1989, quando o então candidato Fernando Collor mostrou na TV uma ex-namorada do presidente Lula acusando-o de ter tentado obrigá-la a fazer aborto”.
Então esse é um bom exemplo – reparem na ênfase do texto: até – do que O Globo entende por “pior embate eleitoral da História do país”?
Muito bom. Deveria então começar a pedir desculpas, pois o grupo de mídia que o controla foi exatamente o maior divulgador do episódio que hoje condena. Explorou-o à exaustão em sua rede de tevês e de rádios e nos seus jornais.
O mesmo O Globo, aliás, chegou a publicar um famoso editorial, intitulado “O direito de saber”, na quinta-feira, 17 de dezembro de 1989, três dias antes do segundo turno das eleições.
Vale reproduzi-lo na íntegra:
O povo brasileiro não está acostumado a ver desnudar-se a seus olhos a vida particular dos homens públicos.
O povo brasileiro também não está acostumado à prática da Democracia.
A prática da Democracia recomenda que o povo saiba tudo o que for possível saber sobre seus homens públicos, para poder julgar melhor na hora de elegê-los.
Nos Estados Unidos, por exemplo, com freqüência homens públicos vêem truncada a carreira pela revelação de fatos desabonadores do seu comportamento privado. Não raro, a simples divulgação de tais fatos os dissuade de continuarem a pleitear a preferência do eleitor. Um nebuloso acidente de carro em que morreu uma secretária que o acompanhava barrou, provavelmente para sempre, a brilhante caminhada do senador Ted Kennedy para a Casa Branca – para lembrar apenas o mais escandaloso desses tropeços. Coisa parecida aconteceu com o senador Gary Hart; por divulgar-se uma relação que comprometia o seu casamento, ele nem sequer pôde apresentar-se à Convenção do Partido Democrata, na última eleição americana.
Na presente campanha, ninguém negará que, em todo o seu desenrolar, houve uma obsessiva preocupação dos responsáveis pelo programa do horário eleitoral gratuito da Frente Brasil Popular de esquadrinhar o passado do candidato Fernando Collor de Mello. Não apenas a sua atividade anterior em cargos públicos, mas sua infância e adolescência, suas relações de família, seus casamentos, suas amizades. Presume-se que tenham divulgado tudo de que dispunham a respeito.
O adversário vinha agindo de modo diferente. A estratégia dos propagandistas de Collor não incluía a intromissão no passado de Luís Inácio Lula da Silva nem como líder sindical nem muito menos remontou aos seus tempos de operário-torneiro, tão insistentemente lembrados pelo candidato do PT.
Até que anteontem à noite surgiu nas telas, no horário do PRN, a figura da ex-mulher de Lula, Miriam Cordeiro, acusando o candidato de ter tentado induzi-la a abortar uma criança filha de ambos, para isso oferecendo-lhe dinheiro, e também de alimentar preconceitos contra a raça negra.
A primeira reação do público terá sido de choque, a segunda é a discussão do direito de trazer-se a público o que, quase por toda parte, se classificava imediatamente de ‘baixaria’.
É chocante mesmo, lamentável que o confronto desça a esse nível, mas nem por isso deve-se deixar de perguntar se é verdadeiro. E se for verdadeiro, cabe indagar se o eleitor deve ou não receber um testemunho que concorre para aprofundar o seu conhecimento sobre aquela personalidade que lhe pede o voto para eleger-se Presidente da República, o mais alto posto da Nação.
É de esperar que o debate desta noite não se macule por excessos no confronto democrático, e que se concentre na discussão dos problemas nacionais.
Mas a acusação está no ar. Houve distorção? Ou aconteceu tal como narra a personagem apresentada no vídeo? Não cabe submeter o caso a inquérito. A sensibilidade do eleitor poderá ajudá-lo a discernir onde está a verdade – e se ela deve influenciar-lhe o voto, domingo próximo, quando estiver consultando apenas a sua consciência.
*****
É bom saber que, embora com 21 anos de atraso, O Globo corrigiu sua rota e reconsiderou sua avaliação sobre episódio tão grotesco.
Mas é preciso avisar aos seus leitores, com a clareza que o assunto merece, que passou a julgar como um ataque o que antes avaliava como sendo um direito.


29 de julho de 2010 - 17:49
[...] This post was mentioned on Twitter by evaldonovelini and adao2001, evaldonovelini. evaldonovelini said: Com 21 anos de atraso, O Globo passa a considerar como ataque o que antes via como um direito. Mais sobre o caso no blog: http://is.gd/dPH0y [...]