Carlos Fuentes


Por Evaldo Novelini - 16 de maio de 2012

Dias assim, quando as folhas trazem a notícia da morte de um grande escritor, são cinzas de tão tristes.

São ocasiões em que a voz do poeta inglês John Donne (1572-1631) ecoa bem lá no fundo d’alma:

- A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim. Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo.

Hoje é dia de lembrar Donne em memória de Carlos Fuentes, o escritor mexicano que partiu aos 83 anos.

Autor de obras fundamentais, como Aura (1961), A morte de Artemio Cruz (1962), Este é meu credo (2002) e Contra Bush (2004), impôs a prosa elegante e a contundência de suas opiniões à tradição literária latino-americana de combater as mazelas humanas com palavras.

Em artigo publicado hoje em O Estado de S. Paulo, o ensaísta colombiano Carlos Granés incluiu Fontes no time que reinventou a literatura do continente, ao lado de Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, José Donoso e Guilherme Cabrera Infante:

- Vale destacar nele o fascínio pelos mitos e passado pré-colombiano do México. Nos seus romances está latente o passado arcaico do México e os conflitos surgidos – e não solucionados até o fim – com a chegada dos espanhóis e o ingresso da AL no Ocidente. Também se deixava absorver pelo desejo de desvendar o efeito sedutor do poder sobre a alma humana, e como essa inclinação produziu cataclismos políticos, sociais e familiares no seu México natal.

Não deixa de ser curioso que o intelectual que travava batalha homérica contra os efeitos devastadores das drogas na sociedade latino-americana tenha morrido justamente no momento em que chegam do México notícias assustadoras e imagens chocantes de assassínios em massa praticados pelos cartéis do tráfico.

Em sua última entrevista a jornalista brasileiro, honra que coube a Fabio Victor, da Folha de S.Paulo, em novembro passado, Fuentes foi questionado sobre a influência do narcotráfico nas eleições deste ano. Entusiasta da descriminalização da maconha, foi incisivo:

- É uma grande pergunta. Eu espero que o sistema democrático mexicano, que nos deu trabalho de construir – porque tivemos um único partido no poder por 77 anos, o PRI, e agora temos três partidos grandes – [seja capaz de ajudar a resolver o problema]. E agora vai haver uma eleição, que é última oportunidade da democracia mexicana. Ou as eleições são legítimas, e se cria uma democracia estável, mais forte, ou o crime embarga o México totalmente. São eleições decisivas para o futuro do México.

Detalhe: a fala é a de um homem que perdeu uma filha para as drogas.

Os fãs brasileiros da literatura de Fuentes serão premiados, provavelmente ainda neste ano, com a publicação do inédito La gran novela latinoamericana (O grande romance lationamericano) pela Rocco. Na obra, o mexicano presta tributo ao maior dos escritores brasileiros, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), citando o romance Memórias póstumas de Brás Cubas (1881):

- Machado é um grande escritor, mas é curioso que seja o único escritor “cervantino” no continente americano. Os demais imitam Balzac, Zola, mas não imitam Cervantes. Machado, ao contrário, toma a grande herança de Cervantes e a torna atual entre os romances, e é isso que lhe dá grande categoria, muito acima de qualquer outro romancista da época.

Agora digam, inteligência dessa envergadura vai ou não fazer falta?

Getúlio vem aí


Por Evaldo Novelini - 15 de maio de 2012

Propaganda: 

 

Bate-papo entre duas feras, Fernando Morais e Lira Neto, sobre uma terceira, Getúlio Vargas:

Guerra de versões


Por Evaldo Novelini - 15 de maio de 2012

A primeira vítima de uma guerra é a verdade.

Hiram Johnson (1866-1945), senador americano

Assuntos de interesse público nunca deveriam ser tratados às escondidas.

Instalada em Brasília para apurar as ligações do contraventor Carlinhos Cachoeira com políticos e empresários, protegida por sigilo, a comissão parlamentar mista de investigação deflagrou uma guerra de versões sobre o real envolvimento de jornalistas – em especial de um dos redatores-chefes da revista Veja, Policarpo Junior – com o crime organizado.

Sem poder beber na fonte, a opinião pública fica sujeita à versões desencontradas do que tem ocorrido nas audiências.

Na semana passada, na abertura da CPMI, os delegados Raul Alexandre Marques e Matheus Mela Rodrigues, ambos da Polícia Federal e responsáveis pelas investigações que resultaram na prisão de Cachoeira, depuseram aos parlamentares.

Segundo a revista CartaCapital, Rodrigues “complicou um pouco a situação de defesa febril” da Veja:

- Segundo o policial, o jornalista Policarpo Junior, diretor da sucursal de Brasília da revista, tinha conhecimento da relação entre o bicheiro Carlinhos Cachoeira e o senador Demóstenes Torres. O depoimento contraria a versão de que o repórter e a publicação, assim como muitos eleitores, foram enganados pelo senador, alçado em suas páginas a “mosqueteiro da ética” e baluarte da moralidade. Repita-se: Veja não só não denunciou um parlamentar envolvido até o último fio de cabelo com um contraventor como o promoveu a ídolo da fatia conservadora do eleitorado brasileiro. Ao promover Torres, a revista manteve um meliante no Parlamento.

Já de acordo com a Veja, os depoimentos dos delegados da Polícia Federal foram totalmente favoráveis ao seu funcionário:

- E o que disseram os policiais em depoimento à CPI? Que o jornalista Policarpo Junior aparece lateralmente nas interceptações telefônicas sempre no exercício da profissão, apurando e investigando informações, que não cometeu crime nem trocou favores com a quadrilha e que não trocou “mais de 200 ligações com Cachoeira”.

Quem está dizendo a verdade? Infelizmente, o leitor comum, sem acesso direto aos depoimentos, vai demorar a saber.

Nome: Jornalismo. Sobrenome: Precisão


Por Evaldo Novelini - 10 de maio de 2012

Deu na coluna do brilhante Luis Fernando Verissimo, hoje, em O Estado de S. Paulo:

- Uma vez um repórter foi me entrevistar em casa e depois escreveu que eu trabalhava num bunker sem janelas. Como o lugar em que eu trabalho tem duas boas janelas dando para um pátio e seus sabiás, conclui que ou a) ele já estava com a ideia do bunker pronta e as janelas não foram convincentes o bastante para mudá-la, b) ele não viu as janelas, c) não se pode confiar em jornalistas. Ou então a impressão de que se trata mesmo de uma toca forrada de livros é tão forte que ele tinha razão: mesmo com janelas, é um bunker sem janelas. Pilhas de livros cobrem mesas e chão, e o dia prometido em que serão colocados nas estantes junto com os outros nunca chega. A Lúcia já desconfia de que seja um dia mítico, que talvez coincida com o fim dos tempos. Mas os livros que estão nas estantes têm uma certa organização. A flâmula do Internacional que pende de uma das prateleiras está presa, não me pergunte por que, pelos livros da Clarice Lispector, que pelo menos estão todos juntos. No bunker também tenho meu som, meus discos de vinil, que passam o tempo todo murmurando “Nunca mais”, e os compactos. É lá também que tenho o meu escarrapachão, ou a cadeirona onde, como o nome está dizendo, me escarrapacho, para ler e ouvir música. E nunca para dormir escondido no meio do dia, apesar de calúnias em contrário.

Leia a íntegra do texto do mestre aqui.

Maquiavel


Por Evaldo Novelini - 9 de maio de 2012

A articulista Dora Kramer, em sua coluna de hoje nO Estado de S. Paulo, sustenta que existem duas questões não respondidas pelas “tropas de ataque” à revista Veja:

- As denúncias divulgadas pela revista eram verdadeiras ou falsas? Ajudaram ou prejudicaram na elucidação de casos de corrupção?

Ao que eu acrescento uma terceira:

- Os fins justificam os meios?

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