Ataque ou direito?


Por Evaldo Novelini - 28 de julho de 2010

- Faltando ainda 20 dias para o início do horário eleitoral gratuito, os principais candidatos à Presidência priorizam o ataque direto, e não as propostas.

É o que vai pela capa da edição de hoje de O Globo.

Intrigado, mergulho na leitura das páginas internas para ver o que o jornalão fluminense entende por ataque.

O Houaiss aqui ao lado me ajuda na tarefa: ”Substantivo masculino. 1: Ação de causar dano moral a alguém; ofensa, injúria”.

Na página 4, a repórter Letícia Lins dá voz à Dilma Rousseff, candidata do PT à presidência, não sem antes lembrar que ela “chegou a exagerar”. Leiamos o que a petista entende por ataque:

- Por todo o retrospecto da vida democrática do país, este é um dos momentos dos mais desqualificadores em toda a História das campanhas eleitorais depois da democratização do país. São acusações completamente infundadas, inconsequentes e irresponsáveis.

Dilma queixa-se, não é preciso ser muito inteligente para descobrir, dos últimos ataques de que foi vítima.

Relembremos dois. Em 5 de abril de 2009, a Folha de S. Paulo, jornal de maior circulação no Brasil, publica no alto da primeira página, como sendo autêntica, uma ficha falsa apontando Dilma como terrorista e assaltante de banco. A repercussão é imediata. Baseado na reportagem, um jornal diário de Mogi das Cruzes (SP) chegou a recomendar em editorial que seus eleitores evitassem votar na petista: “Para a Presidência da República, no entanto, convenhamos, assaltante de banco e sequestradora não é uma opção segura.”

Um outro é mais recente. Indio da Costa, candidato a vice-presidente na chapa encabeçada pelo tucano José Serra (PSDB), nome preferido do baronato da mídia tupiniquim para suceder Luiz Inácio Lula da Silva, acusa o PT de estar ligado ao narcoterrorismo.

Mas O Globo, relembremos, julga que Dilma exagera. Por quê? Segundo a repórter Letícia Lins porque ela se esqueceu do que o próprio PT fez em 2006, quando alguns de seus membros foram “flagrados com malas de dinheiro para comprar um dossiê falso”. Tanto dinheiro, que eram necessárias malas para acondicioná-lo, em troca de informações mentirosas? Sei. Tudo muito lógico.

O que chama mais atenção, no entanto, é o segundo motivo empregado pela jornalista do jornalão fluminense para afirmar que Dilma exagera: “[Ela se esquece] até da campanha de 1989, quando o então candidato Fernando Collor mostrou na TV uma ex-namorada do presidente Lula acusando-o de ter tentado obrigá-la a fazer aborto”.

Então esse é um bom exemplo – reparem na ênfase do texto: até – do que O Globo entende por “pior embate eleitoral da História do país”?

Muito bom. Deveria então começar a pedir desculpas, pois o grupo de mídia que o controla foi exatamente o maior divulgador do episódio que hoje condena. Explorou-o à exaustão em sua rede de tevês e de rádios e nos seus jornais.

O mesmo O Globo, aliás, chegou a publicar um famoso editorial, intitulado “O direito de saber”, na quinta-feira, 17 de dezembro de 1989, três dias antes do segundo turno das eleições.

Vale reproduzi-lo na íntegra:

O povo brasileiro não está acostumado a ver desnudar-se a seus olhos a vida particular dos homens públicos.

O povo brasileiro também não está acostumado à prática da Democracia.

A prática da Democracia recomenda que o povo saiba tudo o que for possível saber sobre seus homens públicos, para poder julgar melhor na hora de elegê-los.

Nos Estados Unidos, por exemplo, com freqüência homens públicos vêem truncada a carreira pela revelação de fatos desabonadores do seu comportamento privado. Não raro, a simples divulgação de tais fatos os dissuade de continuarem a pleitear a preferência do eleitor. Um nebuloso acidente de carro em que morreu uma secretária que o acompanhava barrou, provavelmente para sempre, a brilhante caminhada do senador Ted Kennedy para a Casa Branca – para lembrar apenas o mais escandaloso desses tropeços. Coisa parecida aconteceu com o senador Gary Hart; por divulgar-se uma relação que comprometia o seu casamento, ele nem sequer pôde apresentar-se à Convenção do Partido Democrata, na última eleição americana.

Na presente campanha, ninguém negará que, em todo o seu desenrolar, houve uma obsessiva preocupação dos responsáveis pelo programa do horário eleitoral gratuito da Frente Brasil Popular de esquadrinhar o passado do candidato Fernando Collor de Mello. Não apenas a sua atividade anterior em cargos públicos, mas sua infância e adolescência, suas relações de família, seus casamentos, suas amizades. Presume-se que tenham divulgado tudo de que dispunham a respeito.

O adversário vinha agindo de modo diferente. A estratégia dos propagandistas de Collor não incluía a intromissão no passado de Luís Inácio Lula da Silva nem como líder sindical nem muito menos remontou aos seus tempos de operário-torneiro, tão insistentemente lembrados pelo candidato do PT.

Até que anteontem à noite surgiu nas telas, no horário do PRN, a figura da ex-mulher de Lula, Miriam Cordeiro, acusando o candidato de ter tentado induzi-la a abortar uma  criança filha de ambos, para isso oferecendo-lhe dinheiro, e também de alimentar preconceitos contra a raça negra.

A primeira reação do público terá sido de choque, a segunda é a discussão do direito de trazer-se a público o que, quase por toda parte, se classificava imediatamente de ‘baixaria’.

É chocante mesmo, lamentável que o confronto desça a esse nível, mas nem por isso deve-se deixar de perguntar se é verdadeiro. E se for verdadeiro, cabe indagar se o eleitor deve ou não receber um testemunho que concorre para aprofundar o seu conhecimento sobre aquela personalidade que lhe pede o voto para eleger-se Presidente da República, o mais alto posto da Nação.

É de esperar que o debate desta noite não se macule por excessos no confronto democrático, e que se concentre na discussão dos problemas nacionais.

Mas a acusação está no ar. Houve distorção? Ou aconteceu tal como narra a personagem apresentada no vídeo? Não cabe submeter o caso a inquérito. A sensibilidade do eleitor poderá ajudá-lo a discernir onde está a verdade – e se ela deve influenciar-lhe o voto, domingo próximo, quando estiver consultando apenas a sua consciência.

*****

É bom saber que, embora com 21 anos de atraso, O Globo corrigiu sua rota e reconsiderou sua avaliação sobre episódio tão grotesco.

Mas é preciso avisar aos seus leitores, com a clareza que o assunto merece, que passou a julgar como um ataque o que antes avaliava como sendo um direito.

TV do Trabalhador


Por Evaldo Novelini - 16 de julho de 2010

Vem aí a TV do Trabalhador.

Com estúdio e torre instalados em Mogi das Cruzes (SP), o canal de televisão da Fundação Sociedade Comunicação, Cultura e Trabalho, entidade ligada à Central Única dos Trabalhadores, entrará no ar no próximo dia 6 de agosto.

Sintonizada com antena UHF, no canal 46, a emissora terá sua programação voltada para educação, cultura, informação e recreação. Detalhes do conteúdo serão apresentados nesta segunda-feira, a partir das 9 horas, em evento na Subsede da CUT em Mogi das Cruzes, no Jardim Santista.

“Será um momento especial para apresentarmos aos trabalhadores a sua própria emissora de televisão”, disse a coordenadora regional da Central em Mogi, Kátia Aparecida Santos. O presidente da CUT em São Paulo, Adi dos Santos Lima, deve estar presente para explicar como funcionará a tevê, que poderá ser sintonizada no canal 46, e a sua abrangência.

A entidade tinha reservado, em outubro de 2007, R$ 15 milhões para investir na compra de equipamentos e na contratação de funcionários para a emissora.

A CUT tentava conseguir uma concessão do governo federal para operar um canal de televisão desde 1987. A batalha só terminou em 13 de maio do ano passado, quando o Diário Oficial da União publicou decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo ministro das Comunicações, Hélio Costa.

O documento outorgava o canal de tevê, de caráter educativo, à Fundação Sociedade Comunicação Cultura e Trabalho, entidade que tem como instituidor e mantenedor o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, ligado à CUT e com sede em São Bernardo.

Obituário


Por Evaldo Novelini - 15 de julho de 2010

jb

Jornal do Brasil

 (9/4/1891-31/8/2010)

Jornal do Brasil


Por Evaldo Novelini - 15 de julho de 2010

Urupê.

Segundo as enciclopédias, um cogumelo parasita que se consorcia com árvores em estado terminal, sugando o que lhes resta de seiva até que tenham virado pó. Também conhecido como orelha-de-pau ou pironga.

O grande escritor paulista José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948) foi muito feliz ao empregar o substantivo como metáfora.

Utilizou-o para definir o caboclo, para o autor, símbolo do menor esforço, sempre a se beneficiar do que a terra dispõe para a sua sobrevivência sem nunca dar-lhe uma contrapartida.

Eis Lobato definindo-o na figura do Jeca Tatu, um de seus personagens mais conhecidos, em famoso ensaio datado de 1918: “Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jeca não mudará de vida”.

Lembrei-me de Urupês, que este é o título do texto de Lobato, ao tomar conhecimento das intenções do empresário Nelson Tanure de fechar o centenário Jornal do Brasil, diário fluminense que circula ininterruptamente desde 1891.

O jornal seria deficitário, segundo justifica o patrão.

Nenhuma novidade. A dívida do JB é histórica. Em janeiro de 2001, quando Tanure arrendou a marca da família Nascimento Brito, batia na casa dos R$ 750 milhões – que ele inteligentemente deixou para trás ao constituir uma nova empresa para editar o jornal.

Em nove anos, a credibilidade do Jornal do Brasil foi dilapidada. Gerido apenas como mais um negócio, destinado a dar dinheiro a qualquer custo, perdeu importância e leitores.

Um episódio simbólico ocorrido em 24 de setembro de 2004 já demonstrava, para quem tinha olhos de ver, que o velho e combativo JB  estava condenado. Nesta data, com o título “Miro denuncia propina no Congresso“, o jornal noticia com exclusividade o mensalão, escândalo político segundo o qual o governo Lula pagava uma mesada a deputados da base aliada para aprovarem seus projetos. Mas, diferentemente do que ocorreria dali a um ano, quando o assunto seria manchete da Folha de S. Paulo, não houve reação alguma.

Atolado em dívidas, estimadas em R$ 100 milhões, e com circulação caindo a 20 mil exemplares diários, o neófito empresário, incapaz de entender o valor de uma marca como o JB para a história da imprensa nacional, opta pela saída mais fácil: acabar com o jornal.

Tal qual o caboclo de Lobato, inábil para trabalhar a natureza que poderia lhe garantir vida mais longa e estável, Tanure prefere sucumbir aos percalços tão logo a seiva que lhe mantém agarrado ao negócio começa a dar sinais de esgotamento.

O JB não é a primeira de suas vítimas. No ano passado, fez o mesmo com a paulista Gazeta Mercantil, diário econômico e político com tanta credibilidade que presidentes faziam questão de ser fotografados com a edição do dia para transparecer que estavam bem informados sobre o que ia no país e o mundo.

O melancólico fim do Jornal do Brasil não significa tão-somente uma opção de leitura a menos nas bancas do país. Com ele, extingue-se também um importante elemento regulador da imprensa no Rio de Janeiro, que passará a ser dominada completamente pelos veículos do grupo Globo.

É algo terrível e temível.

Para se ter uma ideia do que isso significa, é preciso relembrar o sinistro episódio relatado no livro Plim-Plim, a peleja de Brizola contra a fraude eleitoral (Conrad, 230 páginas, 2005), escrito pelos jornalistas Paulo Henrique Amorim e Maria Helena Passos.

O livro conta a história das eleições para o governo do estado do Rio de Janeiro de 1982, disputada palmo a palmo pelos candidatos Leonel Brizola e Wellington Moreira Franco.

Brizola era inimigo declarado da Globo, que contratou uma empresa privada, a Proconsult, para fazer uma apuração dos votos paralela à da justiça eleitoral.

Ressalte-se que, à época, o voto ainda era manual e a apuração levava dias.

Enquanto Brizola vencia na contagem oficial, o candidato da Globo, Moreira Franco, liderava a da Proconsult. Os veículos globais, evidentemente, só noticiavam o resultado que lhes interessava.

O golpe branco só não se configurou justamente porque, segundo relatam Amorim e Maria Helena no livro, o jornal e a rádio Jornal do Brasil denunciaram a falcatrua em alto e bom som e alertaram autoridades e a opinião pública nacionais.

Maktub


Por Evaldo Novelini - 12 de julho de 2010

Sob o título “Estava escrito”, Mauricio Dias escreve em sua Rosa dos Ventos, seção imperdível da semanal CartaCapital:

- Afirmação editorial da revista Veja, edição nº 1999, de março de 2007: Os primeiros 60 dias do governo Arruda no DF são um furacão de eficiência. Se continuar assim, ele fará uma revolução.

E, fez.

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