Dias assim, quando as folhas trazem a notícia da morte de um grande escritor, são cinzas de tão tristes.
São ocasiões em que a voz do poeta inglês John Donne (1572-1631) ecoa bem lá no fundo d’alma:
- A morte de cada homem diminui-me, porque eu faço parte da humanidade; eis porque nunca pergunto por quem dobram os sinos: é por mim. Nenhum homem é uma ilha, completo em si próprio; cada ser humano é uma parte do continente, uma parte de um todo.
Hoje é dia de lembrar Donne em memória de Carlos Fuentes, o escritor mexicano que partiu aos 83 anos.
Autor de obras fundamentais, como Aura (1961), A morte de Artemio Cruz (1962), Este é meu credo (2002) e Contra Bush (2004), impôs a prosa elegante e a contundência de suas opiniões à tradição literária latino-americana de combater as mazelas humanas com palavras.
Em artigo publicado hoje em O Estado de S. Paulo, o ensaísta colombiano Carlos Granés incluiu Fontes no time que reinventou a literatura do continente, ao lado de Vargas Llosa, Gabriel García Márquez, José Donoso e Guilherme Cabrera Infante:
- Vale destacar nele o fascínio pelos mitos e passado pré-colombiano do México. Nos seus romances está latente o passado arcaico do México e os conflitos surgidos – e não solucionados até o fim – com a chegada dos espanhóis e o ingresso da AL no Ocidente. Também se deixava absorver pelo desejo de desvendar o efeito sedutor do poder sobre a alma humana, e como essa inclinação produziu cataclismos políticos, sociais e familiares no seu México natal.
Não deixa de ser curioso que o intelectual que travava batalha homérica contra os efeitos devastadores das drogas na sociedade latino-americana tenha morrido justamente no momento em que chegam do México notícias assustadoras e imagens chocantes de assassínios em massa praticados pelos cartéis do tráfico.
Em sua última entrevista a jornalista brasileiro, honra que coube a Fabio Victor, da Folha de S.Paulo, em novembro passado, Fuentes foi questionado sobre a influência do narcotráfico nas eleições deste ano. Entusiasta da descriminalização da maconha, foi incisivo:
- É uma grande pergunta. Eu espero que o sistema democrático mexicano, que nos deu trabalho de construir – porque tivemos um único partido no poder por 77 anos, o PRI, e agora temos três partidos grandes – [seja capaz de ajudar a resolver o problema]. E agora vai haver uma eleição, que é última oportunidade da democracia mexicana. Ou as eleições são legítimas, e se cria uma democracia estável, mais forte, ou o crime embarga o México totalmente. São eleições decisivas para o futuro do México.
Detalhe: a fala é a de um homem que perdeu uma filha para as drogas.
Os fãs brasileiros da literatura de Fuentes serão premiados, provavelmente ainda neste ano, com a publicação do inédito La gran novela latinoamericana (O grande romance lationamericano) pela Rocco. Na obra, o mexicano presta tributo ao maior dos escritores brasileiros, Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908), citando o romance Memórias póstumas de Brás Cubas (1881):
- Machado é um grande escritor, mas é curioso que seja o único escritor “cervantino” no continente americano. Os demais imitam Balzac, Zola, mas não imitam Cervantes. Machado, ao contrário, toma a grande herança de Cervantes e a torna atual entre os romances, e é isso que lhe dá grande categoria, muito acima de qualquer outro romancista da época.
Agora digam, inteligência dessa envergadura vai ou não fazer falta?


