O filho do Brasil começa a fazer carreira no cinema internacional a partir de amanhã.
Dia triste hoje, não?
Não desejava iniciar o ano com uma nota desoladora, mas a morte do jornalista Daniel Piza nos estertores do 2011, aos 41 anos, deixa-me sem alternativa.
Dono de uma cultura enciclopédica e de um texto icástico, Piza era minha leitura preferida aos domingos. O Estado de S. Paulo, ao menos nesses dias, começava pela Sinopse.
Um erro bobo – desses que jornalistas cometem todo dia – marcou a carreira de Piza. Em sua passagem pela Folha de S.Paulo, ele matou Jesus Cristo enforcado, o que bastou para os críticos tomarem o cisco pela trave, em uma das mais tremendas injustiças já cometidas. Luis Nassif já fez o desagravo necessário.
Nesta hora de desencanto, fica difícil encontrar palavras mais bem apropriadas para definir a morte prematura de Piza do que nota do escritor Luis Fernando Verissimo (sim, o gaúcho já é quase uma obsessão, hehe) publicada hoje no Estadão, sob o título ‘Injustiça’:
- O mais terrível da morte aos 41 anos do Daniel Piza, com quem convivi menos do que gostaria, é não ter contra o que dirigir nossa indignação pela brutal injustiça. Foi a fatalidade, foi a vida… nada que se possa responsabilizar pelo que nos fizeram.
Diquinha: Saiba mais sobre Daniel Piza clicando aqui.
* A privataria tucana, de Amaury Ribeiro Jr., da Geração Editorial, com 344 páginas. Sucesso editorial do ano, com 120 mil exemplares vendidos em um mês, o livro mostra que o processo de privatização de empresas estatais empreendido pelo presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) ocultou série de irregularidades para beneficiar amigos e parentes do ex-governador de São Paulo e duas vezes candidato a mandatário máximo da nação, José Serra (PSDB). Um terço das páginas da obra reproduz documentos que comprovariam a existência de empresas fantasmas utilizadas para desviar recursos públicos.
* Cartas para Hitler, de Henik Eberle, da Planeta do Brasil, com 480 páginas. Já se escreveram alguns livros sobre o apoio do povo alemão a Adolf Hitler (1889-1945) na implantação do Terceiro Reich, mas nenhum é tão pungente quanto este. Trata-se de compilação de cartas enviadas pela população ao ditador desde que ascendeu ao poder até às vésperas do suicídio. Os comandados não simplesmente amavam seu líder, mas veneravam-no como a um deus. Percebe-se claramente que Hitler aproveitou-se do sentimento antissemita dos alemães, expresso de maneira inequívoca nas missivas, para implantar a sua Solução Final, que exterminaria seis milhões de judeus.
* Em algum lugar do paraíso, de Luis Fernando Verissimo, da Objetiva, com 200 páginas. LFV, como já foi dito aqui mesmo neste blog, é o grande cronista da atualidade, o mestre da narrativa curta, capaz de transformar em prosa de altíssima qualidade assuntos áridos como a morte ou a última revolução nos países do norte da África. Nesta coletânea, Verissimo enquadra com argúcia e bom humor o tempo e a história da humanidade, desde os tempos de Adão e Eva no paraíso celestial até as tentações atuais que nos empurram ao inferno.
* Hitler, de Ian Kershaw, da Companhia das Letras, com 1.088 páginas. A biografia definitiva do ditador alemão mentor do genocídio dos judeus e do projeto de implantar um reino hegemônico que durasse mil anos. O livro destaca-se por mesclar passagens da vida pessoal de Adolf Hitler, amante dos animais e vegetariano convicto, com o envolvimento no planejamento de batalhas e preparação de seus exércitos para anexar países à Grande Alemanha. Detalhes íntimos do líder ariano, por quem mulheres se apaixonavam facilmente e até tentavam suicidar-se caso não fossem correspondidas (e frequentemente não eram), recheiam a obra. Informações comezinhas, como a do golpe de sorte que livrou Hitler de se chamar Adolf Schicklgruber, conferem um sabor especial às mais de mil páginas.
* Honra teu pai, de Gay Talese, da Companhia das Letras, com 512 páginas. A pena mais festejada do novo jornalismo ainda em exercício mergulha na máfia norte-americana. O livro-reportagem relata em minúcias a história do imigrante italiano Joseph “Joe Bananas” Bonanno (1905-2002), patriarca de uma das chamadas Cinco Famílias de Nova York, e do filho Salvatore “Bill” Bonanno (1932-2008), protagonista de uma sangrenta guerra entre mafiosos pelo controle do poder no submundo novaiorquino. Eletrizante.
* O cemitério de Praga, de Umberto Eco, da Record, com 480 páginas. Finalmente o autor italiano recupera a verve criativa que parecia adormecida desde O nome da rosa (1980). Escrita no estilo oitocentista, a trama se passa ao longo do Século XIX e relata a história do surgimento do libelo antissemita Protocolos dos sábios de Sião, livro que inspirou Adolf Hitler a criar os campos de concentração para exterminar judeus. Embora seja um romance, os personagens e acontecimentos descritos são reais. “Curiosamente, a única figura de fato inventada neste romance” - salienta o editor da obra – “é o protagonista Simone Simonini, embora, como diz o autor, basta falar de algo para esse algo passar a existir.”
* O espetáculo mais triste da terra, de Mauro Ventura, da Companhia das Letras, com 320 páginas. Jornalista experimentado e íntimo da Língua Portuguesa, o autor resgata o triste episódio que acometeu o Gran Circo Norte-Americano, em Niterói, na tarde de 17 de dezembro de 1961, quando 3.000 espectadores, a maioria crianças, assistiam ao número do trapézio. Em 10 minutos, o fogo (Criminoso? O livro trata a versão com ceticismo) acabou com a apresentação. Foi a maior tragédia circense da história e o pior incêndio com vítimas do Brasil. O número de mortos chegou a 503. No meio de tantas tragédias, emergem duas figuras encantadoras: o cirurgião Ivo Pitanguy, cujas intervenções plásticas devolveram a autoestima às vítimas que saíram do episódio com queimaduras graves na pele, e o empresário José Datrino, que, ao saber da tragédia, desfez-se de seus bens e passou a amparar as famílias com mensagens de esperança e consolo – sim, aí está a gênese do Profeta Gentileza (1917-1996).
* Os últimos soldados da Guerra Fria, de Fernando Morais, da Companhia das Letras, com 416 páginas. Um livro de Fernando Morais é sempre um grande acontecimento. O talento do autor em contar boas histórias, recheadas de episódios saborosos, fica ainda mais evidente quando posto a favor de tema intrigante. Aqui, tem-se um grupo de espiões cubanos infiltrados pelo governo de Fidel Castro em organizações norte-americanas anticastristas. A função dos agentes é identificar ações terroristas, planejadas no seio dessas entidades para afastar turistas de Cuba e sufocar financeiramente o governo comunista, que vê no dinheiro trazido por veranistas a tábua de salvação após o colapso da União Soviética, grande financiador do regime castrista.
* Steve Jobs, de Walter Isaacson, da Companhia das Letras, com 632 páginas. A biografia autorizada do gênio da informática, desde a infância de filho adotivo até o sucesso empresarial que revolucionou seis indústrias: computadores pessoais, filmes de animação, música, telefones, tablets e publicação digital. A obra responde a quase todas as perguntas sobre Jobs, morto prematuramente aos 56 anos, em 5 de outubro de 2011. E conta casos curiosos, como o de que o biografado tinha extrema dificuldade para escolher os móveis de casa por achar inconveniente ou simplesmente feio o design das peças. O fundador da Apple é retratado em todas as suas facetas, sem concessões. Na obra, ele aparece tanto como o ser humano intratável, pouco afeito à higiene e aos avanços da medicina (que o fez retardar o início do tratamento do câncer que o mataria), quanto como o espírito perturbado em busca de paz espiritual desde os primeiros anos de vida.
* Tripé do tripúdio e outros contos hediondos, de Glauco Mattoso, da Tordesilhas, com 216 páginas. O livro mais impactante da lista, não recomendado para estômagos fracos ou puritanos. Trata-se de série de pequenos textos autobiográficos que relatam como o autor, homossexual, extrai prazer sexual de situações humilhantes a que é submetido. Limpar tênis sujos com a língua é apenas uma delas.
* Segundo a modestíssima opinião do editor do blog. A posição dos livros na lista não indica prevalência ou preferência; seguiu-se, apenas, a ordem alfabética.
Volto a Luis Fernando Verissimo.
Por quê? Ora, não é preciso motivo para reler boas penas. Só gostaria de dividir excerto da crônica ‘Liberdades’, uma das 41 de Em algum lugar do paraíso, livro já discutido aqui.
Trata-se da capacidade do mestre de conduzir o leitor para o clímax e… Surpreendê-lo no último segundo, na última palavra.
Vejam se exagero:
Toda liberdade é relativa. Verdade exemplarmente ilustrada por este diálogo entre o preso e o carcereiro.
- Nunca mais vou sair daqui.
- Calma. Não desanime.
- Não tem jeito. Estou aqui para sempre.
- Vou ver o que posso fazer por você.
- Não adianta. Estou condenado. Desta prisão eu não saio. Se esqueceram de mim.
- Eu não esquecerei. Voltarei para visitá-lo.
- Promete? – diz o carcereiro.
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